Comboios
Sinopse
Filme exibido como parte integrante do 15.º hádoc – Cinema Documental em Leiria
"Há esperança infindável. Uma infinidade de esperança. Mas não para nós."
Estas palavras de Franz Kafka, escritas num mundo que ainda não conhecia o pior do século XX, abrem o mais recente trabalho do mestre polaco do documentário de arquivo, Maciej Drygas. Como uma nuvem escura que se adensa sobre a paisagem, a epígrafe anuncia o que está para vir: um mosaico visual composto exclusivamente por imagens recolhidas em 46 arquivos de todo o mundo, um monumento cinematográfico à dualidade do engenho humano.
Comboios atravessa o século XX ao sabor dos carris, desde a euforia da construção das locomotivas, o glamour das viagens de comboio, a elegância dos vagões-restaurante, passageiros em traje de festa que embarcam com a esperança de que algo mude ao chegar ao destino. Há uma beleza quase inocente nestas imagens, uma fé no progresso que o cinema soube captar desde os seus primeiros anos.
Mas o mesmo engenho que transporta sonhos depressa se transforma em máquina de horror. As estações enchem-se de soldados que partem para a frente e regressam mutilados, transportados nos mesmos vagões que os levaram. Os prisioneiros desfilam esfarrapados, as deportações sucedem-se num ciclo que parece não ter fim. Os comboios que levavam famílias em viagem de lazer começam a transportar corpos. A euforia dá lugar ao silêncio.
Drygas não acrescenta palavras. Não há narração, não há entrevistas, não há testemunhos. Há apenas imagens — um arquivo emocional do século XX — e uma paisagem sonora esculpida com precisão cirúrgica por Saulius Urbanavicius, onde o chiar dos carris, o apito das locomotivas e o silêncio absoluto se entrelaçam numa partitura de raro impacto. A montagem de Rafał Listopad, premiada no IDFA, cose estas imagens como quem cose feridas: com delicadeza, mas sem nunca desviar o olhar. Trata-se de um labirinto de possibilidades, de caminhos que se cruzam e se separam, uma encruzilhada permanente entre a beleza e a barbárie, entre o génio humano e a sua perversão mais obscura.
Vencedor do Grande Prémio do IDFA 2024 para Melhor Filme e Melhor Montagem, e presente nos mais conceituados festivais internacionais, como é que Comboios responde a Kafka quando ele nos diz que há esperança infindável, mas não para nós? Talvez assim: reconstruindo, frame a frame, a memória do que fomos — para que não voltemos a ser.
Ficha técnica
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Comboios, de Maciej Drygas Trains (Pociągi) | 81 min. | Polónia, Lituânia | 2024 | m/12 International Documentary Film Festival Amsterdam 2024 – Vencedor Melhor Documentário International Documentary Film Festival Amsterdam 2024 – Vencedor Melhor Montagem DOK.fest München 2025 – Seleção Oficial DocsBarcelona 2025 – Seleção Oficial
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Outras Informações
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