O CHÃO TRANSFORMADO EM ONDAS - Exposição de Ricardo Gomes
Sinopse
O chão transformado em ondas
Por algum encarrilhado dos relógios, e para introduzir um elemento de tricô, o convite repentino e inesperado para realizar esta exposição num breve espaço de tempo, deixou-me sem título na mão, e sozinho.
Por isso, o que aqui está exposto, foi produzido sem hierarquia, direcção, organização, para uma exibição pública.
Nascemos destinados ao olhar e ao ouvir. A nossa missão não é apenas labor, mas sim testemunhar. Como diriam provavelmente alguns poetas, somos a forma como o universo encontrou de se observar a si próprio. Estes desenhos foram feitos nesse contexto, isto é, são um eco sociopolítico que nos angustia como um corpo poroso, mas ainda assim esperançoso às mudanças por vir … o espanto nos olhos de um catraio que corre para o parque, e na sua correcção à luz rala do mundo que aí se vai desenhando.
Vivemos numa espécie de eclipse lunar, os desenhos dialogam com o que ferve dessa matéria escura, transportam um idioma do sarro dos dias, contestatário, satírico, paródico, mas também onde o extraordinário se disfarça de hábito: a divisão do trabalho, que é o princípio de qualquer ordem hierárquica, de esferas de experiências e formas de vida separadas, mas sem perder o calor lírico do chão doméstico; a sintaxe afectiva; a roupa num varal; a matéria do corpo no trabalho público que cuida do que é de todos. Nesse sentido, o que quer que seja arte, é a humanização dos sentidos humanos. É essa glosa.
São desenhos que tocam dramas psicológicos e que expõem a melancolia e o trauma que atormentam os seus sujeitos - que nos atormentam a todos – ao assistirmos à brutalidade tratada como racionalidade.
A realidade, hoje, é mais ficcional do que as nossas ficções. O célebre veredito de Teodoro W. Adorno de que "escrever poesia depois de Auschwitz é um acto de barbárie", é uma crítica radical à forma como a arte lida com o sofrimento extremo: a busca da beleza, da harmonia e do consolo, torna-se cínica.
Nesse sentido, desenhada uma flor, não sobreviveria à temperatura do nosso tempo. Não é apenas a bordoada do real, é a estupefacção do inimaginável, no tempo. O nosso tempo. O chão comum transformou-se em ondas...de choque.
Ricardo Gomes
Ficha técnica
Organização
Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira
Outras Informações
Entrada gratuita
Público-alvo: Público em geral
Inauguração dia 7 de março às 15h.
Autobiografia
Não acredito em autobiografias. Quero dizer: não acredito no que está escrito nelas.
"E de tudo os espelhos são a invenção mais impura", escreveu Herberto Helder.
Mas por que é que o poeta fala em impureza nos espelhos? Certamente não é o mito de Narciso que mostra essa impureza. A espécie humana é activa e não se enamorou pela própria imagem. É outra coisa, da ordem da ilusão. Os espelhos são impuros porque não se vêem, ocultam a realidade impedindo o nosso olhar de atravessá-los como um vidro transparente. Em vez disso vemo-nos a nós mesmos. Essa é a verdade do cálculo do avatar que construímos sobre nós mesmos, apenas para confirmar a nossa história, ou a diplomacia miúda de egos grandes.
Desconfio até da palavra autobiografia. Por definição, uma autobiografia é uma escrita feita pelo biografado. Ora, se empregarmos as mesmas ferramentas de um biógrafo convencional, está a obrigatoriedade de entrevistar pelo menos dezenas de pessoas que privaram, trabalharam, com o biografado, amaram-no ou detestaram-no, conheceram a família ou passaram de forma significante pela sua vida, mesmo que rapidamente.
Já a memória é outra coisa. Mas quando se trata de ouvir a própria memória, todos sabemos como esta pode ser traiçoeira. Donde uma memória nunca é uma autobiografia, mas apenas memória. Podíamos deslocar a mão para Freud, para nos fazer recordar que o mistério é essa moldura onde nos encontramos todos. No entanto, e numa leitura antiga mas ainda com voz de agora, interessa abrir uma fissura em escala íntima e aí fincar os pés: nunca desenhei por afectação ou pretensão artística, mas por necessidade, recolhendo centelhas de alegria que as horas deixavam cair.
Para o que aqui importa, a obra é o percurso biográfico de um autor. Esta aí está com a mão e os seus frutos.